Esses últimos meses têm sido muito difíceis pra mim, você nem imagina como. E o meu único motivo para sorrir tem nome: Sophia.
Não sei como aconteceu, foi tudo tão rápido. Hoje faz cinco meses que nos conhecemos, pela internet. Nunca nos vimos pessoalmente, mesmo ela morando no interior do meu estado. Mas, cara… Não sei nem como explicar. Foi algo muito forte que surgiu dentro de mim, uma necessidade de falar com ela todos os dias, dentro e fora da internet. Falamos-nos por mensagem de celular também, o tempo todo. Deve ser por isso que a minha conta, nesses últimos três meses, tem vindo mais de 400 reais, todo o mês. E isso tem dado vários problemas com a minha mãe.
Mas o meu maior problema, agora, é: eu estou amando. Nunca tinha sentido nada assim, nada. Mas agora, todas essas músicas melosas de amor, que eu escuto, têm feito o sentido que antes nunca fizeram.
Acho que isso é amar.
E eu precisava falar pra ela. E o mais rápido possível. Mesmo que fosse pra tomar um fora e ela nunca mais querer falar comigo. Mas eu precisava saber logo, para não me apegar mais e mais, e no fim… Só sofrer mais do que o necessário.
- Eu preciso falar pra ela, pra ela me chutar de uma vez. Por que depois será pior… Melhor que seja agora. – pensei comigo mesma. – Bom, lá vai, não agüento mais esperar.
Peguei meu celular, o modo de comunicação mais direto que tínhamos, e comecei a escrever.
“Oi soph! Eu queria te falar uma coisa, mas não sei muito bem como começar. Ãhn vamos lá… Lembra que eu te falei que eu não tinha encontrado a pessoa certa pra amar ainda? Alguém que me fizesse sorrir nos momentos mais horríveis? É. Eu achei ela, e essa pessoa é você. Você me tirou de um buraco imenso, surgiu em um momento em que nada mais fazia sentido pra mim, eu tinha acabado de perder um irmão e nada, eu disse nada, conseguia me fazer sorrir, apenas as nossas conversas, as nossas horas no telefone, na internet, e é isso. Olha, me desculpe qualquer coisa, se isso foi um choque ou algo assim, mas eu precisava te dizer, não dava mais pra guardar aqui dentro. Beijos, eu te amo <3”
Acho que eu nunca fiquei tão nervosa mandando uma mensagem para alguém. Acho que nunca mandei uma mensagem tão grande e tão bem escrita para alguém.
Bem escrita? Não.
Ta bom, acho que não sou muito boa com palavras, mas eu tentei. Tudo que eu escrevi ali foi da forma mais sincera possível, por mais que tenha ficado feio ou algo assim. O que eu sinto por ela é o sentimento mais puro e mais verdadeiro possível, e eu não sei demonstrar isso. Porra.
Vou pra casa.
Não, não vou. Vou pro Thiago. Ele está sempre em casa, então vou pra lá, isso. São 14h da tarde, ta cedo. Vou andando.
Cheguei, bati na porta e ele me atendeu, muito depressivo, muito triste, olhar vago, como sempre foi.
- Oi, meu amor. – Sorri.
- Ah, eu sabia que era você, só pelo número de batidas na porta, meu amor. – rimos baixo.
Ele sorriu forçado, como de costume.
Não estranhei.
Ou melhor, estranhei sim, ele nunca se quer forçava um sorriso, nunca mostrava nenhuma felicidade.
Entrei e fui até o quarto dele, notando que estávamos sozinhos em casa. Sentei na cama e fiquei olhando em volta, para os pôsteres dele, que eu achava muito massa.
- Thi, eu já te disse que eu acho esse pôster muito, mas muito massa? – eu disse, apontando e olhando para um que ficava logo ao lado da cama dele. Um do Oliver Sykes, vocalista do Bring Me The Horizon, segurando o intestino delgado, meio morto vivo. Ah, é muito sensacional.
- Sim, conversando com ele, como melhores e velhos amigos, como éramos desde crianças. Lembranças. Ele foi até o computador e colocou BMTH para tocar, nossa banda favorita, no máximo volume. Nada mudou. O rosto dele sempre triste, sem nenhum vestígio de felicidade, sempre olhando para o presente vazio. Mas eu o amor do jeito que ele é, me faz feliz. Ele saiu da cadeira do computador e me disse que já voltava. Notei uma tristeza maior em seu rosto, vi algumas lágrimas, mas ele disse que não acontecera nada. Sentei na cadeira do computador e botei a música “pray for plagues” do Bring Me The Horizon, música perfeita, a preferida dele, a minha preferida. Olho para o lado e lá está ele, na porta, me olhando. Sorri, mas desta vez não recebi absolutamente NADA em troca, apenas um piscar de olhos muito apertado, e uma lagrima rolando. Com a metade de seu corpo aparecendo, me olhava. As lagrimas aparecendo mais claramente. Comecei a me preocupar.
- Carol, eu te amo mais do que tudo, tu é a minha melhor amiga, e única, que eu pude contar. Você é tudo na minha vida, tudo! Nunca te esquece disso. – Ele me olhava nos olhos, coisa rara.
- Thiago, eu nunca tinha imaginado que alguém poderia se tornar tão especial e tão insubstituível na minha vida, e você é essa pessoa, pra mim. Eu te amo, muito. - Falei olhando fundo dos olhos dele, já com lágrimas frenéticas rolando pelo meu rosto, mostrando a nossa pulseira de “best friends” que tínhamos desde os 7 anos, cada um com uma metade do coração, aquele coração que se esvaziou completamente e se destruiu em milhões de pedaços.
- Não, Carol, para. - Ele me olhou e fez um sinal para que eu parasse, enquanto me aproximava.
- Como assim, Thi? O que está acontecendo? Por favor, me fala, eu… – Não entendendo nada, ou com medo de entender, perguntei. Antes que eu, ao menos terminasse a pergunta, vejo o que ele me escondia, aquela arma, a arma do pai dele, que é policial e tinha armas carregadas em seu escritório. Maldito general egocêntrico.
- Desculpe Carol. Mas só fica longe, só isso que eu te peço. – Ele disse, levando a arma em direção a cabeça.
- Não, Thiago, não pense nisso. NÃO. - Eu gritei, com lágrimas nos olhos, correndo para impedir.
- Carol, sai. – Ele gritou, me empurrando. E acelerando a ação.
- Não Thi, por fav… – Tarde demais, ouvi o tiro e vi o corpo de Thiago caído no chão. Não sei dizer o que realmente senti naquele momento, foi algo imenso e desesperador.
- Não pode ser, não, não pode ser verdade, por favor, não – Eu dizia, ou tentava dizer, ajoelhada no chão, soluçando entre as palavras. Arrastei-me até o corpo de Thiago, com as lágrimas frenéticas rolando pelo meu rosto, o abracei, me sujando com o seu sangue, o molhando com as minhas lágrimas. Não havia mais saída.
Abraçada ao corpo de Thiago, fiquei ali, sentada no chão. O Bring Me The Horizon tocando alto, choro, amizade, sangue, sofrimento, morte.
Eu acho que nunca chorei tanto na minha vida. Ou melhor, na minha, agora, pseudo-vida.
Ta bom, mais uma suspensão pra minha coleção. Dane-se. Andei pelo corredor, em direção a minha sala, na qual a aula já havia começado. Entrei, notei olhares furiosos e divertidos me encarando, segui até a minha classe, arrumei minhas coisas e saí para o corredor, apertando o passo. Segui com a minha mochila nas costas até o portão da escola, por onde saí correndo, sem dar nenhuma explicação para os guardas. Corri lomba a baixo, até ficar estrategicamente longe da escola, e comecei a andar lentamente, sem rumo, afinal, eram apenas 10h e 30 min. Caminhei até um parque perto da minha casa, no qual eu encontrava meus amigos todos os domingos, me sentei em um banco e acendi um cigarro. Fiquei ali, por umas 3 horas, até que a porra do meu celular tocou.
“We need a doctor, a fucking doctor.” (This Song Is About Being Attacked By Monsters - Leathermounth)
Era a minha mãe.
- Oi. – eu atendi, com desanimação.
- Carolina, onde você está? Me ligaram do colégio agora, e você foi suspensa né? Que horror, você quer matar aquele menino? Aonde você vai parar Carolina, que absurdo… – ela dizia, com um tom de preocupação fingida.
- Ta bom, mãe… Mais alguma coisa?
- Sim, Carolina. Onde você está?
- Por aí… E daqui a pouco estou indo pra casa, tchau.
- Por aí? Bom, não demore. – terminou com um suspiro de desaprovação, e, logo após, desligou o telefone.
Bom, dane-se ela. Eu a minha mãe não nos falávamos muito, só quando necessário ou quando ela resolvia fingir que se preocupava comigo, fingir ser mãe. Mesmo em casa, nós não tínhamos muito contato, eu sempre prefiro ficar no meu quarto, sozinha, ouvindo minhas músicas, das quais ela reclama, ficar no meu computador, falando com os meus, supostos, amigos, no fake. Sim, fake, um perfil falso que você faz, com nome de outra pessoa, fotos de outra pessoa, e fala com outras pessoas assim, que fazem à mesma coisa que você. Sem vida, eu sei. Pessoas rejeitadas da sociedade, eu sei. Mas lá, pelo menos, as pessoas, que não sabem que eu realmente sou, gostam de mim. Ou dizem isso, pelo menos.
10 Horas. Intervalo.
- Graças a Deus! – falei, levantando minha cabeça, que estava entre os meus braços cruzados na classe.
- Vamos lá, Carol, anda. – Disse Lari, me incentivando a levantar da classe e ir para o pátio, enfrentar a mesma coisa de sempre que, por acaso, nunca era com ela, por mais que ela andasse comigo. Larissa e Fernanda sempre davam um jeito de fugir. E quando era briga, então, saíam correndo na maior cara de pau.
- É, anda, eu to com fome. – disse Fernanda sempre impaciente.
- Ah meu, ta. – eu disse, com a voz exausta.
Sair da sala de aula sempre era um grande problema pra nós. Ta, pra mim. E é só sair mesmo, que já vem algum imbecil daqueles, e sempre com as mesmas frases: “E aí emo, como ta a vida? Opa, pra ti é morte né?”, “Como vão teus cortes?”, “Emo desgraçada! Aqui não é o teu lugar.”. Ta bom, ta bom, já sei isso, não precisa repetir. Chegando ao bar da escola, eu ouvi uma voz vinda de trás de mim.
- Ô emo, segura essa. – Não vi quem era, não reconheci pela voz. Mas segundos depois disso, um pedaço de madeira me atingiu nas costas.
- O que? – eu disse baixo, em tom raivoso. Só o que consegui ouvir foi milhões de risadas na minha volta, de todos aqueles tipos de pessoas dispensáveis existentes na minha escola. Olhei pra trás e ali estava, a madeira e Pedro. Ah, eu já devia imaginar que era ele, agora rindo e olhando para as menininhas em volta dele. Haha, que engraçado não? Peguei o objeto que me atingiu, que agora estava entre meus pés, na mão e o observei.
- Pô emo, não segurou por quê? Machucou? Ah, acho que você não sente mais dor né? Você já é toda machucada mesmo. – Ele dizia, enquanto olhava e ria para as meninas sem vida do lado dele.
- Pedrinho, cuidado. – uma delas o alertou, enquanto me via andando na direção deles, com a madeira na mão. Ele me olhou, por meio segundo, o tempo que houve entre o aviso de sua “amiga” e o que estava em minhas mãos atingir sua mandíbula, com força, e o seu sangue escorrer pela boca meio aberta.
- Cuidado, Pedrinho. – Eu disse, com uma voz fina, em uma tentativa falhada de imitar a menina que havia dito isso antes. Vê-lo cair no chão, ensangüentado, desacordado, foi a melhor coisa da minha manhã. Eu já agüentava tanto ele, há tanto tempo, mas o máximo acontecido sempre foram brigas em frente à escola, de socos e chutes, entre eu e ele, mas nada com sangue, nunca. Eu sorri maliciosamente, virando a cabeça pra trás e avistei dois garotos que corriam em minha direção, nas minhas costas, com uma cara de extrema raiva, com os punhos fechados. Sem tirar o sorriso do rosto, virei inteiramente pra eles e os encarei, ou melhor, encarei o punho de um deles, que atingiu direto o meu olho esquerdo. Antes que eu pudesse pensar em fazer qualquer coisa em defesa, a roda que se formou entre nós foi aberta pelo diretor da escola, acompanhado de Larissa e Fernanda. Elas foram chamar ele? E eu as vi saindo dali. Viu? Eu disse, elas sempre fogem.
- Que palhaçada é essa? Parou, parou! É sempre a mesma coisa, dona Carolina – gritou Carlos, diretor da escola, me olhando com cara de desgosto, como sempre. Olhando em volta, notou Pedro jogado no chão, ensangüentando.
– O que é isso? O que aconteceu? Quem fez isso? O que… Meu Deus, que absurdo. – Ele fitava o menino a seus pés, com os olhos arregalados.
– O que aconteceu aqui? Alguém pode me dizer? AGORA! – Ele gritou, agora com uma raiva imensa.
Logicamente, todos os imbecis a minha volta apontaram, automaticamente, pra mim, sem dizer nenhuma palavra sequer.
- Leve ele a coordenação. – Apontando para Pedro, Carlos disse para Stela, psicóloga da escola, que sempre o acompanhava. Ele me encarou, suspirou impacientemente, me pegou pelo braço direito e me arrastou até sua sala, que eu já conhecia bem.
- Carolina, que absurdo é esse? Agora você quer matar seus colegas? Isso não pode continuar assim. Você, todo o dia, arrumar brigas aqui, todos os dias! Você anda tomando seus remédios para depressão? A sua depressão anda aumentando, você fica com raiva do mundo e desconta aqui na escola? – Ele dizia, sentando em sua cadeira na ponta da mesa, me encarando. Senti-me obrigada a falar algo.
- O que? Eu descontando? Quantas vezes eu já te disse que são eles que começam isso? São esses imbecis alunos da sua escola, que, não sei por que, me odeiam mortalmente e querem ME MATAR. Você, realmente acha que eu ia perder o meu precioso tempo com esses idiotas? Ah, por favor! Eu sempre os agüento demais, logo quando chego à escola, as provocações começam, eu ignoro. Eu sempre ignoro. Sempre quando brigo fisicamente, são eles que vêm pra cima de mim, querendo me eliminar, e é sempre fora da escola. Você acha que eu vou ficar parada, sendo destruída? É óbvio que não! Eu tenho que me defender não? É o que costumam fazer. Mas hoje passou dos limites, ele me jogou um pedaço de madeira nas minhas costas. E eu tenho que agradecer por ele ter feito isso, assim, do nada? Não posso dar um troco? AVÁ!
- Carolina, você o bateu com o taco, bateu no rosto dele. Ele poderia ter morrido e…
- Mas essa era a porra da idéia. A quanto tempo ele me enche a paciência? Ah, tem que morrer mesmo, foda-se ele. – eu o interrompi, falando cada vez mais alto, beirando um grito.
- Está bem, dona Carolina. Não preciso nem dizer que a senhora está suspensa, não é? três dias. – gritou Carlos, levantando da cadeira e vindo na minha direção.
- Falô, to saindo. – falei, ignorando-o e saindo da sala.
É incrível! Tem gente que não se cansa de, todos os dias, fazer as mesmas brincadeiras que, por acaso, não tem graça nenhuma.
- Haha, que engraçado vocêêêêê. Imbecil! – sussurrei para mim mesma, em tom sarcástico, enquanto arrancava o bilhete que dizia: “emo sucks!” da porta do meu armário.
Bom, sabe o que é uma pessoa não conseguir entrar na escola, pegar suas coisas no armário, andar pelo corredor até chegar a sua sala, sem ser atingido por uma bolinha de papel jogada por um idiota que, em seguida, começa a te chamar de tudo de ruim que vem na cabeça, porque você não é igual a todos eles? Porque você não se veste igual? Por que você não é uma patricinha que não tem amigos verdadeiros, só quer saber coisas materiais, e ARGH! Que nojo, e ainda usam mini short, mini saia, mini blusa e tudo que há de mini, nem com sapatos com saltos imensos? E o mais importante, lógico: se esfregar loucamente nos garotos da escola e dar pra todos eles no fim. Ok, eu sou bem diferente disso, eu uso calça, camiseta e tênis. Tenho apenas um amigo. Sim, apenas UM. Aqui, na escola, eu tenho 2 amigas, mas são amigas pra conversar, zoar, rir, sair as vezes, sabe? Só! Mas não confio nelas o bastante pra me abrir assim, como com o Thiago, que é o meu melhor amigo, desde que eu nasci. Que nós nascemos. Ele é a única pessoa que eu faço tudo isso: sair, zoar, conversar, rir, e etc. E eu ainda confio nele, me abro com ele, assim como ele se abre pra mim, e confia em mim. Enfim, isso tudo, de ser descriminada, é uma grande merda! Mas a chave da tranqüilidade é ignorar, não? É, até a hora que alguns deles vêm pra cima de você, pra brigar, e sempre homens, porque as “patys” não vão quebrar seu salto com uma emo, como me chamam, não é? É, eu sou saco de pancadas aqui na escola, acredite. Após essa cena matinal, de agressões verbais e tudo mais, liguei meu Ipod e enfiei os fones no meu ouvido, para me poupar dos comentários inúteis a minha volta, e andei em direção a minha sala de aula. Fui parada uma sala antes da minha, com gritos.
- Carooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool, minha linda. Bom dia! – era Arthur, um garoto um ano mais novo do que eu, que se diz perdidamente apaixonado por mim, desde a vez que a gente ficou, em uma festa, a 2, quase 3 anos atrás. Ele não significa absolutamente nada pra mim, e está ciente disso. Cara, foi só um beijo e uma festa, e eu nem estava consciente. Maldito álcool. Bom, foda-se ele.
- Bom dia, Arthur. – respondi friamente e segui pelo corredor, até a minha sala. Sempre com olhares estranhos sobre mim, andei até a última classe, a minha, ao lado da Larissa e atrás da Fernanda, aquelas minhas amigas que eu falei. Sentei-me, coloquei um fone de ouvido e comecei a fazer meus desenhos enquanto a aula passava.